04,Jun
Coluna

Humilhação na deportação

Brasileiros deportados em vôos fretados pelos EUA desembarcam no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte e a larga maioria relata maus tratos. Mesmo no avião eles são algemados. (Foto: Reprodução)

- Athaliba, os frequentes vôos com desembarque de brasileiros escorraçados pelo governo dos EUA, no 1º trimestre do ano, no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte, em Confins, Minas Gerais, nos dá a exata dimensão do quanto é humilhante a deportação. No ano passado 18 mil brasileiros foram detidos na fronteira daquele país, com os EUA fretando os vôos para deportar os imigrantes. Essa ação mostra o alinhamento horizontal entre os presidentes Trump e Bolsonaro, o mito pés de barro, que aprovou as expatriações em massa.

- Marineth, a procura desesperada por melhores condições de vida tem levado milhares de compatriotas a abandonar o país. E, nesse ciclo de pandemia do COVID-19, que assola o mundo e causa a morte de centenas de milhares de pessoas, fica ainda mais evidente a nossa chaga social. Os desníveis econômicos e sociais, entre nós, chegaram ao extremo. Quem aguenta?

- Pois é, Athaliba. Somamos mais de 12 milhões de desempregados (três vezes mais que a população do Uruguai: 3,457 milhões), além de milhões de pessoas vivendo na informalidade. Nas mais de seis mil favelas espalhadas por mais de 300 municípios, conforme dados do IBGE, em habitações precárias, moram cerca de 13 milhões de pessoas. Esse contingente corresponde a quase duas vezes mais a população do Paraguai de sete milhões de habitantes.

- Marineth, a larga maioria dos brasileiros deportados dos EUA é de Minas Gerais?

- Nem todos, Athaliba. A maioria, sim. Deportados em 25/1 somaram a outros degredados num vôo de outubro ano passado. Nesse contexto, os banidos contam que foram algemados nas mãos e nos pés, mesmo dentro do avião. O Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA, questionada sobre essa situação, disse a um jornal de São Paulo que “o uso das algemas é autorizado por lei americana”. Vale o preço pelo “sonho americano?” É muita humilhação, né? 

- Marineth, no governo Lula, uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) tratou da emigração de brasileiros aos EUA, em 2006. A finalidade era garantir melhorias nas condições sociais e nos direitos de cidadania dos brasileiros que vivem no exterior de maneira ilegal. E aí o Itamaraty deixou de autorizar os vôos fretados pelos EUA para deportação em massa. Na gestão Temer, porém, no entanto, os vôos fretados voltaram a ser autorizados.

- Bem, Athaliba, em 2019, primeiro ano do governo do mito pés de barro, a quantidade de brasileiros detidos nos EUA aumentou mais de 10 vezes, em relação a 2018. O aumento foi de 600% em comparação às 3.252 pessoas barradas em 2016, quando houve o último recorde. No mês de janeiro deste ano foram detidos, aproximadamente, 1.600 compatriotas nos EUA.

- Marineth, diferentemente das leis migratórias americanas, a lei brasileira atual aprovada em 2017 tem como princípio o “repúdio a praticas de expulsão ou de deportação coletivas”.  

- Athaliba, a área de aviação, em Confins, é apelidada de “aeroporto dos deportados”, pois os vôos fretados dos EUA têm aumentado consideravelmente. Dia 2/3 o vôo trouxe 55 pessoas, seguido de outros em 6/3 e 13/3. Já são nove vôos desde outubro de 2019, com 520 imigrantes ilegais devolvidos ao Brasil. Cada vôo custa 230 mil dólares ao governo estadunidense.

A imagem de pai e filha mortos afogados às margens do rio na tentativa de cruzar a fronteira dos EUA com o México causou indignação no mundo. (Foto: Reprodução)

- Marineth, a travessia do Rio Grande faz parte da rota que brasileiros usam para acessar os EUA, na fronteira com o México, Lá morreram afogados Oscar Martinez Ramirez, de 25 anos, e a filha Valéria, com menos de dois anos de idade, de El Salvador, no dia 23/1. A fotografia, nos jornais, e as imagens dos corpos às margens do rio exibidas nas TVs, e replicadas na internet, causou indignação no mundo. As instituições de direitos humanos criticaram Donald Trump.

- Athaliba, alguns deportados pedem para não ser identificados ao fazer relato à imprensa, no desembarque. As denúncias de maus tratos são comuns entre eles, que envolve, inclusive, crianças. Uma mulher declarou que “eles tratam a gente como se fossemos delinquentes; sei que a gente estava entrando ilegal; a gente quer ir trabalhar”. Outra de Governador Valadares contou que a tentativa de entrar clandestinamente nos EUA “é muito sofrido, pois a gente entra com uma mente sadia e sai com uma mente doente, aterrorizada”.

- Marineth, nas tendas de lona, os capturados passam fome e frio, e abuso psicológico. A comida, em geral, é pão, batatinha e burritos, às vezes, estragada. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil não questiona as regras adotadas pela Casa Branca e a atitude do chanceler Ernesto Araújo é de acatar decisões de Washington. Essa relação vexatória só terá fim com uma nova ordem social no mundo. Portanto, amiga, vamos manter a chama da luta acessa!

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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