26,Feb
Coluna

MUDAR QUEM?

Todos nós queremos mudança. Queremos mudar de bairro, cidade, país, os móveis, a televisão de tamanho, as roupas, o namorado, a namorada, a família, tantas coisas...

Mudar é sempre bom. São as mudanças no mundo que o fazem avançar, para um lado positivo para alguns, bom para poucos, principalmente, e necessário para muitos. A mudança sempre tem um lado que beneficia a um grupo e nem tanto ao outro.

foto: morguefile.com

Ao longo da História a humanidade trilha um caminho, supostamente, para diante. Do ponto de vista tecnológico é positivo, porque através das máquinas muito do nosso tempo foi poupado, a existência da máquina vai ao encontro das necessidades que a forma de ocupar o tempo se apresenta. Enrolado, né? Explico: Mudar é uma relação de equilíbrio entre o espaço e o tempo, onde a exiguidade de espaços no mundo faz com que o tempo seja aproveitado ao máximo. Maximizamos a utilização do tempo, com o auxílio das máquinas, tentando aproveitar o espaço da melhor maneira possível. Maximizamos o espaço, damos um melhor aproveitamento à medida que ele se comprime, com as multidões, com as moradias, e vamos nos apequenando imaginando que crescemos em qualidade e tempo de vida. Ou seja, sem perceber, abrimos mão de alguma coisa (o espaço maior para viver), em troca de tecnologias que, supostamente, nos permitem aproveitar melhor o tempo: Isso é uma mudança no viver, e é um paradoxo.

Quando queremos mudanças, sejam políticas, sociais ou quaisquer outras, sempre enxergamos do nosso ponto de vista, e, portanto, pessoal, aquilo que seria bom para todos. A confusão nasce porque cada um tem um ponto de vista ideal, que seria ideal para todos. Realmente, queremos mudar o mundo? Ou mudá-lo para nós?

A verdade é que queremos uma igualdade e uma padronização do produto chamado viver. E a questão é se estamos dispostos a abrir mão daquilo que nos beneficia para a chegada ao lugar comum.

Quem tem vinte bilhões gostaria de mais cinco, o que não deve ser uma tarefa muito difícil. Quem tem vinte milhões gostaria de mais cinco, o que não deve ser difícil. Quem tem vinte mil gostaria de mais cinco, o que se tornaria uma tarefa mais difícil. Quem tem vinte gostaria de mais cinco, o que se tornaria mais difícil ainda. Quem não tem nada gostaria de alguma coisa, o que se tornaria impossível. Donde o último vai se mostrar disposto a tomar de alguém, e assim por diante as coisas se tornam muito difíceis, porque, com certeza, aqueles que possuem milhões ou bilhões são inalcançáveis, e quanto aos outros que possuem menos, abrir mão de algo os tornarão mais próximos daqueles que não tem nada do que daqueles que possuem muitos.

Como aqueles que poderiam abrir mão de algo para que o equilíbrio aconteça não estão dispostos a isso, resta pedir por mudanças que jamais acontecerão. Afinal, os poucos diriam: mudar para quê, se para mim a coisa funciona bem. Se ninguém quer abrir mão de nada, vai mudar para quê? Para pedir mudanças temos que abrir mão de alguma coisa. Quem está disposto?

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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