Coluna

MÁS COMPANHIAS

Juiz de Fora (MG) - O que podemos tirar das experiências más que vivemos? Seria possível tirar proveito delas? Muitos dirão que delas tiramos lições, que aprendemos sobre alguma coisa, como, por exemplo, entender o bem e o mal e saber separá-los. É um pensamento repetido milhares de vezes que soa como lições de coaches ou coisa parecida. Mais ou menos como falar sobre o óbvio milhares de vezes.

Lições tiramos de tudo. Uma delas, que eu aprendi, é que tudo aquilo que nós lemos, vemos, ouvimos ou refletimos devemos pensar onde podemos tirar vantagem para nossas vidas. É um egoísmo potencializador. Ao ler, ver, ouvir ou refletir guardamos lições para nós mesmos, para a construção de estratégias futuras ou preparação para eventos inesperados. Somos marqueteiros de nós mesmos, todo o tempo.

Foto: Andre Hunter/Unsplash. 

Os bons procuram os bons e os maus os maus. Caso os segundos procurem os primeiros, a função dos bons é fazê-los bons. E o contrário? Um bom procuraria um mau para ser mau? Ou um mau procuraria um bom para boicotá-lo?

Nossas amizades são uma miríade de comportamentos e caráteres. Convivemos todo o tempo com uma quantidade de pensamentos e conceitos, e lutamos para preservar nossas bondades. Inclusive, os próprios maus acreditam nas suas bondades. Os maus não veem o mal que fazem, até porque se acham justiceiros. E o bom tenta encontrá-lo para evitá-lo ou confrontá-lo. Logo, o bom e o mau dependem um do outro.

Quando frequentamos determinados ambientes, e sabemos que lá as más companhias existem, conviver com elas é como se adentrássemos um lugar imundo e malcheiroso. Nos acostumamos com ele. O problema é essa naturalização daquilo que é ruim. É ruim aceitar que uma sociedade tem, entre seus entes, aqueles que são maus, excessivamente maus, se isso é possível dizer.

As más companhias não são lições de vida. Acredito que uma lição de vida é um aprendizado muito mais amplo, quando compreendemos nossos arredores e tentamos viver com eles ou tentar modificá-los. Logo, as más companhias não nos ensinam nada. Elas nos ensinam o não ser. Mas isso, qualquer um que prima pela humanidade compreende. Seria como elogiar o honesto, o probo. Não cabe elogio para um comportamento que deve ser o mote da vida humana. Não gosto de elogiar as qualidades, simplesmente porque exercê-las deveria ser um ato normal e previsível da vida em sociedade. Quando fazemos esses elogios óbvios vejo o fracasso das nossas instituições. O elogio às qualidades é neutro, às más qualidades o descaso e o combate uma obrigação.

Assim sendo, as más companhias fluem entre nós e nos acostumamos com os cheiros delas. Como se estivéssemos em um mercado para comprar as melhores coisas e precisamos sentir os cheiros daquelas que desprezamos.

Uma má companhia não é uma lição de vida e de coisa nenhuma. É o absurdo tê-las entre nós, é algo que nos deveria fazer pensar. E que elas curtam seus entes. Ninguém está obrigado a converter ninguém. Porque o mau exerce sua maldade com picardia. E o bom não é bom, talvez não seja suficientemente mau para ser chamado assim. 
 

Nilson Lattari

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Crônicas e Contos

NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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