Coluna

Rio submerso na corrupção

O ex-juiz federal Witzel, governador do Rio de Janeiro, teve abertura de impeachment pela ALERJ por 69 a O. (Foto: Divulgação).

- Athaliba, o Rio de Janeiro, infelizmente, está submerso na lama infecta da corrupção. Não tem salvação à vista. É o que se deduz. Diga-me como é possível a população continuar apática, indolente, indiferente à sina do adultério político que a assola? Os escândalos de atos colossais de corrupção envolvendo governadores não tem fim? Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Luiz Pezão e, agora, o ex-juiz Wilson Witzel. Será que ele escapa do processo de impeachment, aberto na ALERJ com o placar estrondoso de 69 a zero?

- Marineth, o placar de 69 a 0 foi acachapante. Não deixa espaço para dúvidas. Absoluto, irrefutável, arrasador. Suscitou uma provocação inusitada, em forma de desabafo, da transexual Mary Help. Ela deixou escapar que “sou adepta do 69, mas, nesse confinamento do COVID-19, que já matou mais de 400 mil pessoas no mundo, entre as quais mais de 40 mil no Brasil, estou impedida de praticar”.

- Ora, Athaliba, isso não é exclusividade da Mary Help. A atriz Maitê Proença, por exemplo, em meio à pandemia do coronavírus, declarou que sente falta de “namorar” e que “detesto ter de fazer sexo sozinha”. Mas, a questão colocada aqui é o provável impeachment do governador do Estado do Rio de Janeiro. Ele é acusado de crime de responsabilidade e, como afirmou, trata-se “dos mesmos fatos que estão sendo investigados no STJ – Superior Tribunal de Justiça”. O ex-juiz foi um dos alvos da ação da Polícia Federal, 26/5, que apura corrupção na contratação de fornecedores para hospitais de campanha. A casa dele e o Palácio Laranjeiras, residência oficial, foram vasculhados.

- Marineth, a passividade dos cariocas diante de contínuos atos de corrupção avassaladora que destrói a cidade é a mesma omissão, indiferença e inércia do nosso povo. Somos carentes, creia, de tradição revolucionária que sirva de exemplo para brecar, conter, reprimir os desmandos políticos. Em Itabira, berço do nosso saudoso poeta Carlos Drummond de Andrade, não tem uma mulher entre os 17 vereadores. E as mulheres são maioria na população de Itabira. Isso explica de certa forma o resultado da falta de tradição de luta.

- Sim, Athaliba. Recordo o poema “Confidência do itabirano”, no qual o poeta diz que: “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê/Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos/Os meninos seguem para a escola/Os homens olham para o chão/Os ingleses compram a mina/Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável”. E o poema termina da seguinte maneira melancólica: “Tive ouro, tive gado, tive fazendas/Hoje sou funcionário público/Itabira é apenas uma fotografia na parede/Mas como dói”.

- Pois é, Marineth. O tal Tutu Caramujo pode nos remeter à expressão “enterrar a cabeça na areia como avestruz”. Se bem que a mencionada ave não tem por hábito esconder a cabeça e, pelo contrário, mete o bico em qualquer buraco. E nós nos acostumamos às concessões da elite dominante em sufocar, neutralizar, abafar as nossas mobilizações por relevantes transformações estruturais no país. Ocê não acha que já está passando do ponto de dar um jeito na situação?

- Athaliba, nós, o povo, precisamos, urgentemente, mudar este status quo. É vital às reais conquistas de uso e fruto das riquezas das quais nossa pátria amada tem o privilégio de possuir. As riquezas não podem continuar “pertencendo” a alguns poucos. E o poder tem que ser popular, efetivamente. Só assim as brutais diferenças e as injustiças serão restringidas na sociedade.

- Ocê tem razão, Marineth. Em plena pandemia, na qual se escancara o nível alarmante da pobreza no país, inescrupulosos políticos não deixam de saquear os cofres públicos. Fazem negociatas escusas sem qualquer cerimônia à dor de milhares de famílias que tiveram parentes mortos na pandemia.

- Athaliba, a situação política, social, cultural e financeira do Estado do Rio de Janeiro é de envergonhar o Brasil no mundo. O ex-governador Sérgio Cabral, condenado a 282 anos de prisão em 13 processos, teve a cara de pau de dizer logo após ser preso que “eu exagerei”. E exagerou mesmo, como se roubar dinheiro dos cofres públicos fosse normal, né? O vaso sanitário dele, no Leblon, tinha a temperatura regulada no assento por controle remoto. Ocê já imaginou isso?

- Marineth, o Rio de Janeiro será resgatado da lama fatídica da corrupção. Creia. Quem sobreviver verá. E a Cidade Maravilhosa, enfim, será uma beleeeeeeeeeeeeeeeeza!!!

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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