14,Nov
Coluna

GEANDRÉ, A OVELHA NEGRA

foto do cartunista geandré
Arlindo Rodrigues, o Geandré (Foto: Divulgação)

Eu achava lindo o desenho feio do Geandré.

Era fã dos cartunistas que tinham o traço tosco, incerto, trêmulo, quase infantil, como o meu. 

Um deles, era Geandré. O desenho dele, como o do Jaguar, possui um encanto que vem da feiura do seu traço.

Geandré anda sumido da mídia. Recentemente (em 2017, acho), nos encontramos no lançamento de uma revistinha do Ota, em São Paulo.

A profissão de cartunista é difícil, mais a dificuldade do ofício compensa pela alegria de conhecer artistas talentosos, gentis, e simpáticos como Geandré. 

A trajetória de Geandré como cartunista, jornalista, escritor e ilustrador começou no suplemento infantil “A Tribuninha”, do jornal “A Tribuna”, na cidade de Santos, em 1963. 

Aos 12 anos de idade, o menino Arlindo Rodrigues foi levado pela mãe, Aparecida Benedita Rodrigues, do bairro do Macuco, onde nasceu, ao centro de Santos, para conhecer a redação do jornal “A Tribuna”, onde, mais tarde, viria trabalhar. 

No suplemento “A Tribuninha”, Arlindo criou seu primeiro personagem, o  antropomórfico ratinho Gil, com sua cabeleira e calça boca de sino, moda nos anos 1960. 

Assinava A. Rodrigues, abreviando o seu nome de nascimento Arlindo Rodrigues. 

O universo dos quadrinhos para o menino, naqueles tempos, em Santos, era limitado. Os desenhos que comhecia eram os impressos nos três jornais da cidade: O Diário de Santos, Diário da Noite e A Tribuna. 

Geandré era fã do cartunista Dino que trabalhava no jornal “A Tribuna”. 

Dino era um dos cartunistas mais conhecido da época. Foi o primeiro chargista a fazer uma caricatura de Pelé, em 1957, muito antes de Pelé se tornar o “Rei do Futebol” .

Dino foi o primeiro cartunista que conheceu. Tornar-se “companheiro de profissão” do ídolo, era um sonho que o menino realizava. 

Aos 16 anos, Geandré mudou-se para São Paulo, onde trabalhou nas revistas das editoras Fittipaldi, Penteado e Prelúdio, nos bairros do Brás e da Mooca. Nessa época, passou a assinar seus desenhos como Geandré Rodrigues. Depois, só, Geandré.

Na cidade de São Paulo, já como cartunista profissional publicou nos jornais “O Dia”, “Diário Popular”, “Jornal da Tarde”, “Jornal do Brasil”, “Folha de S. Paulo” e em “O Pasquim”. 

Em 1971, transferiu-se para o jornal “Última Hora”, de Samuel Wainer, onde publicou suas charges e ilustrou textos de Chico Anísio, Antonio Contente, Plínio Marcos. 

No começo da década de 1970, Geandré se mudou para a Europa onde trabalhou na Espanha e na Suíça e foi premiado no Salão de Humor de Berlim, na Alemanha. 

No Velho Continente, colaborou em publicações como  “Correo Catalan”, “Jano”, “La Codorniz”, “Paris Match” e “Schweizer Ilustriére”. 

Seu trabalho faz parte do Museu Internacional de Cartoon de Basel (Suíça). 

É o único cartunista brasileiro a ter um cartum no “Taller de Picasso”, o atelier de Picasso, em Barcelona.

O artista teve seus trabalhos publicados nas revistas “O Cruzeiro”, “Vogue”, “IstoÉ”, “Playboy”, “Claudia”, “Nova”, “Visão”, “Status”, “Senhor”, “Planeta”, “Privé” e na “MAD” brasileira. 

Em São Paulo, na galeria do Carmo, batizou uma exposição de desenhos com o título “Chiclete com banana”, título que em 1985 seria usado por Toninho Mendes em uma revista da Circo Editorial.

Publicou os livros “Ovelha Negra”, “Qual é a Graça”, “Faz me rir”, “Marketing Comics”, “Almanaque Collorido”, “O Impeachment”, “Os Gênios” e “As Malaguetas”. 

Ilustrou trabalhos em co-autoria com Caetano Veloso, “Leãozinho”; Ignácio de Loyola Brandão, “O homem que espalhou o deserto”; Ciro Pellicano, “Era uma vez uma rês” e Fernando de Moraes “Chatô áudio livro”. 

Foi uma espécie de precursor do “Plim-Plim” da “TV Globo”, quando, em 1975, apresentava seus cartuns no programa “TV Cartum”, na “TV Cultura” de São Paulo.

Em 1974, Geandré retornava do continente europeu, de navio, quando teve a idéia de lançar um jornal dedicado ao cartum, na linha do semanário “Hermano Lobo” (Madrid), que contava com os melhores cartunistas da Espanha. 

capa do jornal ovelha negra
Capa do jornal Ovelha Negra fundado pelo cartunista Geandré (Foto: Divulgação)  

O “Ovelha Negra”, nascido na cozinha do apartamento do cartunista abriu espaço para os cartunistas manifestarem, através do desenho de humor, a sua insatisfação contra a Ditadura Militar, vindo a ser a maior contribuição de Geandré para a imprensa alternativa. 

Com tiragem média de 20 mil exemplares, o “Ovelha Negra” reuniu em suas páginas cartunistas e redatores de talento como, Canini, Angeli, Laerte, Miran, JAAB, Santiago, Dirceu, Nicolielo, Emil, Luscar, Mariza, Racsow, João Zero, Fraga, Racy, Nani, Solda, Maurício Veneza, Reinaldo, Guidacci, Luís Gê, Jota, Jaime Leão, Alcy, Chico, Paulo Caruso, Marcon, Canini, Edgar Vasques, Luis Fernando Veríssimo, Sílvio Abreu, Luis Pimentel, e Tabaré.

O jornal “Ovelha Negra” que tinha setenta por cento do seu espaço usado por cartuns e os outros trinta por cento em pequenos textos, contos de humor e piadas, foi inovador, na opinião do Geandré: “não houve um veículo que, até então, na história da imprensa brasileira, fosse exclusivamente dedicado ao humor gráfico”.

Cartunistas estrangeiros eram convidados para participar do Ovelha Negra, na seção “Humor sem Passaporte”. O cartunista espanhol Chumy Chumez, que também trabalhou como escritor e diretor de cinema, foi o estreante.

A distribuição do “Ovelha Negra” era feita pelo próprio Geandré, Wilson - sócio do Café Paris - e pelo amigo  Telmo Cortes, fã do jornal no centro e nos bairros de Pinheiros e Vila Madalena - bairro boêmio onde havia a maior concentração de universitários, jornalistas e artistas. 

A comercialização fora de São Paulo - Rio, Paraná, Rio Grande do Sul e Minas Gerais - eram feitas pelos próprios cartunistas que levavam os exemplares, e nem sempre acertavam as contas.

A revista era vendida também em bancas de rodoviárias, centros estudantis e pequenas livrarias de São Paulo. 

Em 1977, Geandré recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo. 

No mesmo ano, depois de oito edições, o “Ovelha Negra” teve que ser fechado. 

A censura e a repressão pressionavam o jornal e o cartunista era constantemente intimado a comparecer à Polícia Federal para dar explicações. 

Geandré era a ovelha negra da imprensa. 

Ediel Ribeiro (RJ)

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Coluna do Ediel

Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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